A imobiliária boutique do Paraíso.

Os comércios que cresceram junto com o Paraíso

De barbearia à padaria, da lanchonete ao ateliê, cinco negócios mostram como tradição, trabalho e relações de confiança ajudam a contar a história do bairro

Quem anda pelo Paraíso talvez não imagine quantas histórias cabem em poucas quadras. Em uma manhã é possível encontrar um barbeiro que corta o cabelo da quarta geração da mesma família, uma padaria cujo nome nasceu de um doce que não fez imaginado, uma lanchonete que precisou mudar de endereço e levou consigo os clientes, um estúdio de Pilates que ajudou a aproximar vizinhos e um ateliê onde o trabalho continua sendo feito em família. Separadas, essas histórias já chamam atenção. Juntas, ajudam a explicar por que alguns endereços acabam se tornando parte da identidade de um bairro.

Cada uma delas começou de um jeito diferente. Algumas nasceram do sonho de imigrantes que reconstruíram a vida em São Paulo. Outras surgiram quando alguém enxergou potencial em uma casa antiga ou decidiu transformar a profissão em um negócio próprio. O que elas têm em comum não está na data de fundação nem no tempo de funcionamento. Está nas pessoas que, todos os dias, mantêm esses lugares vivos e acabam fazendo parte da rotina de quem mora no bairro.

Um legado que atravessa gerações na Barbearia

Quem conversa com Miguel percebe rapidamente que a história da barbearia nunca é contada apenas por ele.

O personagem principal de quase todas as lembranças é Cesare, seu pai. Foi ele quem chegou da Itália em 1954 e, três anos depois, começou a trabalhar na pequena barbearia de Augusto, no Paraíso. Durante mais de 30 anos, os dois dividiram o mesmo espaço. Em 1988, quando Augusto decidiu parar de trabalhar, entregou o ponto para Cesare, que já conhecia cada cliente e cada detalhe da rotina da casa.

Miguel entrou na barbearia em 1993. Aprendeu o ofício ao lado do pai e nunca mais saiu dali. Quando Cesare faleceu, em 2018, Miguel deu continuidade ao trabalho que os dois já realizavam juntos há 25 anos.

É por isso que as histórias da barbearia quase nunca falam de cortes de cabelo, elas falam de pessoas. Miguel lembra de clientes que chegavam ainda crianças e precisavam de um banquinho sobre a cadeira para alcançar a altura certa. Hoje, muitos voltam acompanhados dos filhos. Em alguns casos, a terceira e até a quarta geração da mesma família continua frequentando a barbearia. Na parede, um painel de fotografias registra parte dessa trajetória. As imagens mostram crianças que cresceram, viraram pais e continuaram voltando ao mesmo lugar.

Ao longo dos anos, a barbearia também virou cenário de mais de vinte campanhas publicitárias. Em uma delas, gravada para o ChatGPT, o salão foi completamente transformado em um estúdio de manicure. Em outra, recebeu o ex-jogador Rivellino. Foi durante uma dessas gravações que surgiu o letreiro “Barbearia Cesar”, instalado na fachada para as filmagens. Quando tudo terminou, Miguel pediu que a identificação permanecesse ali como homenagem ao pai, Cesare.

O trabalho também continua muito parecido com o que Cesare fazia. Miguel ainda prefere pente, tesoura e navalha aos cortes feitos apenas com máquina. Diz que muitos clientes voltam justamente por isso. Durante a pandemia, precisou adotar o atendimento com hora marcada para continuar trabalhando. O sistema deu certo e permanece até hoje. O modo de atender mudou, mas a conexão com os clientes, não.

A padaria que nasceu de um doce

Poucas quadras dali, outra história começa de forma bem diferente. O protagonista não é um barbeiro italiano, mas um padeiro português que decidiu abrir uma pequena doceria em frente à União Cultural Brasil–Estados Unidos. O negócio recebeu o nome de um doce criado por ele e pelo confeiteiro da casa, uma mistura de gema com mel chamada Gêmel. A receita acabou não se tornando o carro-chefe da vitrine, mas deu nome a uma empresa que, décadas depois, se transformaria em uma das padarias mais conhecidas de São Paulo.

Regina Henriques costuma dizer que a Gêmel nasceu quase por acaso. A principal padaria da família continuava no Largo do Arouche e havia o plano de construir uma unidade maior na região da Bela Vista. Mas o movimento da pequena unidade do Paraíso surpreendeu. Os clientes começaram a pedir pão fresco, café da manhã e outros produtos. José foi adaptando o negócio às necessidades da vizinhança, comprou o imóvel ao lado, depois outro, ampliou o espaço e manteve a padaria funcionando mesmo durante anos de reforma. A doceria acabou se tornando uma das referências gastronômicas do bairro.

Ao lembrar dessa trajetória, Regina fala do crescimento da empresa com naturalidade, mas se detém mesmo nas pessoas que caminharam junto com a família. Ela conta que alguns funcionários trabalham ao seu lado desde que ela tinha 19 anos. Hoje, aos 61, continua dividindo a rotina com colegas que conhece há mais de quatro décadas. “A gente se adora. É muito da minha família, porque a gente tem liberdade para contar tudo”, diz.

Essa proximidade também faz parte da relação com os clientes. Regina conta que, no balcão da padaria, as conversas vão além do café da manhã. Ali se trocam indicações de médicos, restaurantes, remédios e receitas. Há clientes que acompanham o crescimento dos filhos da família Henriques e funcionários que torcem para que ela consiga descansar alguns dias quando viaja. “É uma grande família tanto dos funcionários quanto dos clientes”, resume.

A ligação chega a atravessar o oceano. Todos os anos, a família viaja para Portugal para colher uvas e produzir o vinho da propriedade que pertenceu aos avós de Regina. Em diferentes ocasiões, vizinhos e clientes foram convidados a participar da viagem e ficaram hospedados na casa da família. Ela acredita que são experiências como essa que ajudam a explicar a relação construída ao longo dos anos. “A pessoa grava para sempre a nossa família. Por isso também a gente é bem conhecido aqui no bairro. Tem muita história”, conta.

Hoje, a Gêmel continua sendo um negócio de família. Regina trabalha ao lado do pai, a irmã administra outra unidade, um sobrinho também entrou para a empresa e a filha já começou a assumir parte da rotina da padaria. Quando fala sobre o futuro, Regina não foca em planos de expansão nem novos negócios. Prefere falar das pessoas que permanecem por perto. É essa convivência diária, construída entre balcões, mesas e conversas, que faz a padaria ocupar um lugar na memória de tanta gente do bairro.

A lanchonete que mudou de esquina sem perder os clientes

Na New’s Lanchonete, a história também começa em família, mas de um jeito diferente. Em vez de um padeiro português, ela reúne um avô, um pai e um sobrinho que decidiram trocar o comércio de tecidos por uma lanchonete em uma esquina do Paraíso.

A ideia surgiu em 1970, quando Chaker Hanna Saba decidiu encerrar a loja de tecidos que mantinha na Rua Direita, no centro de São Paulo. Procurando um novo negócio para o filho, José Carlos Chaker Saba, encontrou o sobrinho Antônio Carlos Saba, que havia deixado a sociedade da Lareira’s, lanchonete que funcionava na Rua Pamplona e também na Avenida Brigadeiro. Os três abriram a New Lareira’s na Rua Joinville, esquina com a Avenida 23 de Maio.

Naquela época, o entorno era formado quase exclusivamente por casas. A clientela era composta pelos próprios moradores da vizinhança, e a qualidade dos lanches e do atendimento fez com que a casa conquistasse frequentadores fiéis logo nos primeiros anos. Em 1983, após o fim da sociedade entre os fundadores, a lanchonete passou a se chamar apenas New’s.

O maior desafio veio pouco mais de uma década depois. Em 1995, o imóvel foi desapropriado para a construção do Túnel Ayrton Senna e a família precisou transferir toda a operação para a esquina da Rua Joinville com a Rua Pirapora. A mudança exigiu que os clientes fossem convencidos a atravessar uma quadra para continuar frequentando o mesmo lugar. Deu certo. A New’s preservou a clientela e continuou fazendo parte da rotina do bairro.

Mais de meio século depois, Guilherme M. Saba vê crianças que chegavam à lanchonete com os pais voltarem acompanhadas dos próprios filhos. Entre uma geração e outra, a casa já recebeu pedidos de casamento, primeiros encontros, estudantes que fazem questão de comer ali antes das provas “para dar sorte” e times de futebol amador que mantêm o hábito de se reunir depois dos jogos. São histórias que ajudam a explicar por que a New’s continua sendo um dos pontos de encontro mais tradicionais do Paraíso.

O restaurante japonês que preservou um sonho de família

 

Se algumas histórias do Paraíso são contadas entre lanches e cafés, outras atravessam gerações ao redor de um balcão de sushi. Desde o fim da década de 1980, o Shin-Zushi faz parte da rotina do bairro, mas sua trajetória começou alguns anos antes, na Liberdade.

O restaurante nasceu em 1981, quando Shinji Mizumoto realizou um sonho cultivado durante anos. Antes de abrir a própria casa, trabalhou em restaurantes japoneses em São Paulo e voltou ao Japão para aprofundar os conhecimentos sobre a culinária tradicional. Ao retornar ao Brasil, inaugurou o Shin-Zushi ao lado da esposa, Miyuki Mizumoto, com uma equipe de apenas quatro funcionários. Segundo Karina Miky Oyaizu, auxiliar administrativa do restaurante, o compromisso com a tradição e a qualidade permanece como um dos princípios que atravessam toda a história da casa.

Depois de oito anos na Liberdade, o casal decidiu construir um endereço próprio no Paraíso. Na época, a região reunia diversas empresas japonesas e era frequentada por executivos vindos do Japão. Grande parte da clientela era formada por japoneses, e o restaurante rapidamente se tornou um ponto de encontro da comunidade.

A história da família mudou de forma inesperada em 1992, com a morte de Shinji Mizumoto. Miyuki decidiu manter o restaurante funcionando enquanto criava os três filhos e preservava o sonho construído ao lado do marido. Anos depois, dois deles, Ken e Nobu Mizumoto, assumiram o balcão e deram continuidade ao legado da família.

Algumas tradições permanecem praticamente inalteradas desde a inauguração. A receita do tamagoyaki continua sendo preparada da mesma forma desde 1981, fotografias registram a trajetória da família e um cliente frequenta o restaurante desde o primeiro dia de funcionamento. Ao longo de mais de quatro décadas, a relação se transformou em amizade e chegou a contribuir para um intercâmbio de itamaes no Japão, fortalecendo ainda mais a história da casa.

Hoje, o maior orgulho é perceber que o Shin-Zushi continua fazendo parte da história do Paraíso, acompanhando gerações de clientes e mantendo viva uma tradição construída há mais de quatro décadas. Para Karina Miky Oyaizu, esse legado se revela no cuidado diário para preservar a história construída pela família Mizumoto e no vínculo criado com quem faz do restaurante parte da própria rotina.

A comunidade que cresceu dentro de um estúdio de Pilates

A Harmony System encontrou outro caminho para criar vínculos no bairro. Ao longo de quase duas décadas, o estúdio reuniu alunos, professores e moradores que ajudaram a construir uma comunidade dentro e fora das salas de Pilates.

A Harmony nasceu quando Cintia Watanabe, Cristiano Assis e Nana Watanabe decidiram abrir o próprio negócio. Cristiano já trabalhava como professor de ginástica no Paraíso e acreditava que a região tinha espaço para um estúdio de Pilates, algo que ainda não existia no bairro. A procura pelo imóvel, porém, quase terminou antes de começar. Depois de várias tentativas frustradas, o trio resolveu insistir mais uma vez em uma casa na Rua Joinville que permanecia fechada havia muito tempo. O imóvel estava deteriorado, mas eles enxergaram ali o potencial para construir a primeira sala do estúdio.

Quase 20 anos depois, o cenário mudou completamente. O bairro ganhou novos prédios, o comércio se expandiu e mais estúdios de Pilates passaram a funcionar na região. A Harmony, porém, continua no mesmo endereço e mantém alunos que frequentam o espaço desde a inauguração. A equipe também cresceu junto com a empresa, quatro colaboradores trabalham ali há mais de 16 anos, entre eles a filha da primeira funcionária, que hoje faz parte da equipe.

O estúdio começou com uma única sala equipada com quatro aparelhos. Hoje ocupa quatro salas completas, mas os fundadores dizem que a maior conquista não foi só a expansão física, mas sim a comunidade criada ao longo dos anos. Muitas amizades nasceram ali, e a primeira associação de moradores do bairro surgiu de uma conversa entre Cristiano e um aluno. “Sentimos orgulho de oferecer saúde e qualidade de vida para o bairro. E também de termos construído uma equipe que é parte de nossa família e que, junto com nossos alunos e alunas, formam uma verdadeira comunidade Harmony System”, resumem os fundadores.

Um ateliê onde o trabalho continua sendo feito em família

Se a Harmony construiu sua história aproximando vizinhos, a Ermida Decorações encontrou outro caminho para criar raízes no Paraíso. Há quase três décadas no bairro, o ateliê continua funcionando em família e preserva um trabalho artesanal que começou muito antes da primeira costura.

Dona Ermida estudou secretariado trilíngue na Suíça e trabalhou durante seis anos como secretária executiva. A mudança aconteceu quando suas filhas estavam para nascer e percebeu que não encontrava, no Brasil, os quartos de bebê que imaginava. Decidiu produzir tudo sozinha e acabou se tornando uma das pioneiras na criação de enxovais e quartos infantis personalizados.

Há cerca de 28 anos instalada no Paraíso, a empresa continua sendo conduzida pela mesma família. A filha, Renata, é responsável pelo atendimento aos clientes. O marido, Vladimir, deixou a antiga profissão para ajudá-la no ateliê e hoje é quem faz o enchimento de todas as almofadas. “Ninguém faz igual a ele”, brinca Dona Ermida. Juntos, acompanham todas as etapas do trabalho, desde a visita à casa do cliente e as medições até a confecção, a entrega e a instalação das peças.

Para Dona Ermida, cada projeto precisa refletir a personalidade de quem vai viver naquele ambiente. Um acabamento diferente, uma combinação de tecidos ou um detalhe artesanal fazem parte desse cuidado. “A cliente vai ver esse ambiente muito tempo, então é importante que ela goste”, explica. Quando perguntam por que escolheu justamente o Paraíso para trabalhar, a resposta continua simples: “É um bairro delicioso. Na verdade, é um paraíso.”

 Onde encontrar:

Barbearia Cesar – R. Abílio Soares, 986

Gêmel Paraíso – R. Teixeira da Silva, 440 – www.instagram.com/gemel_paraiso

New’s Lanchonete – R. Joinville, 377 – www.instagram.com/newslanchonete

Shin-Zushi – R. Afonso de Freitas, 169 – https://www.instagram.com/shinzushioficial

Harmony System – www.instagram.com/harmonysystem2020

Ermida Decorações – R. Tutóia, 795 – https://www.instagram.com/ermidadecoracoes

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