A imobiliária boutique do Paraíso.

The 310 Club: O quintal que atravessou gerações

O quintal que atravessou gerações: casa centenária reuniu diferentes gerações das famílias Pellegrini e Di Pietro no Paraíso. Agora, o endereço abre espaço para um novo capítulo, conectando memória, pertencimento e uma nova forma de viver o bairro.

Quando Eduardo Emílio Lang Di Pietro plantou uma muda de flamboyant no jardim da casa da família, no Paraíso, dificilmente imaginava que a árvore acompanharia tantas transformações. Sob seus galhos cresceram as filhas, aconteceram reuniões de família e passaram capítulos importantes da história de um endereço que atravessou gerações.

Em breve, o terreno receberá um novo empreendimento. Antes disso, porém, vale voltar no tempo.

A história daquela casa começa muito antes da chegada do The 310 Club. Ela também antecede Eduardo. O imóvel fez parte da trajetória das famílias Pellegrini e Di Pietro, descendentes de imigrantes italianos que ajudaram a construir parte da história de São Paulo ao longo do século XX.

Quando a casa se aproximava dos 100 anos, ainda carregava marcas de diferentes gerações da família. Avós, pais, filhos e netos passaram por aquele endereço. “Era um local que reunia a família. Meus avós moraram ali, depois meu pai, depois eu e minha esposa. Minhas filhas cresceram naquela casa e o flamboyant cresceu junto com elas”, relembra Eduardo. Os almoços de domingo reuniam parentes de diferentes idades em volta da mesma mesa. Histórias eram compartilhadas entre uma geração e outra. Crianças cresciam correndo pelo jardim. Novas memórias surgiam sem que ninguém percebesse que, um dia, aquele lugar também se tornariam uma lembrança.

Além disso, o próprio bairro mudava ao redor. Eduardo lembra das histórias contadas pelo pai. “Quando era adolescente, meu pai tinha cavalos na região e ele cavalgava onde hoje fica o Parque Ibirapuera”, recorda. As casas com muros baixos ocupavam boa parte das ruas e permitiam uma convivência mais próxima entre os moradores. Pouco a pouco, o bairro ganhou edifícios, recebeu novos moradores e acompanhou o crescimento de São Paulo.

Essa família viveu cada uma dessas transformações. O sobrenome ficou conhecido na cidade por meio das Casas Eduardo, rede de calçados e chapéus que chegou a reunir quase 50 lojas espalhadas por São Paulo. Ao mesmo tempo, as diferentes gerações da família construíram trajetórias ligadas ao direito, ao comércio, à política e à vida pública paulistana.

Enquanto a cidade crescia, a casa permanecia como um ponto de encontro familiar. Anos depois, seria a vez de Eduardo construir suas próprias lembranças naquele mesmo endereço.

Foi ali que suas filhas cresceram. Foi ali que o flamboyant plantado no jardim acompanhou a passagem dos anos. Foi ali que encontros familiares, comemorações e momentos cotidianos ajudaram a construir uma ligação que ultrapassava a própria construção. A casa ocupava um terreno e as lembranças ocupavam algo muito maior.

O tempo, porém, também transforma os lugares. Prédios surgiram ao redor do imóvel. O perfil dos moradores mudou. O valor dos terrenos aumentou. A manutenção de uma casa prestes a completar um século passou a exigir investimentos cada vez maiores. Aos poucos, ficou claro que aquele ciclo chegava ao fim.

Houve desafios pelo caminho, tentativas de encontrar novos usos para o imóvel e a compreensão de que uma nova etapa começava. Para muitas pessoas, essa poderia ser uma história sobre o desaparecimento de uma casa, mas Eduardo prefere enxergá-la de outra forma. “A casa foi demolida, mas está sendo criado um novo espaço muito legal para o bairro”, afirma.

A frase ajuda a entender por que esta não é uma história sobre término. É uma história sobre continuidade. Foi nesse momento que surgiu o encontro entre a trajetória da família e o projeto idealizado por Caike Silva, atleta e empresário que vive nos Estados Unidos e decidiu trazer para São Paulo um conceito inspirado nos clubes de wellness que conheceu em Los Angeles. A identidade visual e o conceito criativo do The 310 Club foram desenvolvidos por Deived Eugênio, diretor criativo do empreendimento.

Entre julho e agosto, o The 310 Club abrirá as portas no endereço. O espaço reunirá quadras de pickleball, aulas de yoga, sauna, áreas de convivência, coworking e uma programação voltada a um grupo restrito de apenas 60 membros.

A proposta busca criar um ambiente que combine bem-estar, produtividade e conexão entre pessoas que compartilham interesses semelhantes. O clube contará ainda com um aplicativo exclusivo para os associados, responsável por concentrar reservas de quadras, inscrições em aulas e acesso a diferentes serviços do espaço.

Ao explicar o conceito do empreendimento, Caike costuma resumir a ideia em uma frase simples. “Nosso objetivo é criar um quintal no Paraíso”, afirma.

Curiosamente, a palavra ajuda a construir uma ponte entre passado e futuro. Por muitos anos, aquele quintal funcionou como uma extensão da própria casa. Era onde a família se encontrava, onde histórias eram compartilhadas e onde o tempo parecia correr em outro ritmo.

Agora, a mesma palavra reaparece para definir o próximo capítulo daquele endereço. “É muito bonito ver um projeto novo nascer em um lugar com tanto legado. Gerações e gerações passaram por essa casa”, diz Caike.

O The 310 Club representa uma visão contemporânea de cidade e de estilo de vida. Ainda assim, sua história começa muito antes das quadras, das aulas e dos espaços compartilhados. Ela começa em uma casa com quase 100 anos.

Uma casa que acompanhou a transformação do Paraíso, reuniu diferentes gerações da mesma família e ajudou a construir memórias que permanecem vivas mesmo depois da demolição. Nem toda mudança apaga o que veio antes. Algumas apenas criam espaço para que um novo capítulo seja escrito.

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